A casa da minha avó cheirava a tecido, laquê e comida caseira.

Eu nunca consegui explicar exatamente o que havia naquela casa que me fazia querer ficar.

Era um apartamento de primeiro andar em Belo Horizonte.

Minha avó paterna morava sozinha ali. Meu avô era português. Veio de Portugal, mas faleceu quando eu ainda era pequena demais para guardar lembranças dele.

Então aquela casa era dela.

Inteiramente dela.

E tinha a sua presença em cada detalhe.

Nos fundos havia um quintal pequeno, mas que para mim parecia enorme. Tinha morango, figo, romã, uva.

Eu passava horas ali.

Catava as frutas direto do pé e comia na mesma hora, ainda mornas do sol.

Brincava sozinha.

Sem relógio.

Sem destino.

Sem precisar de mais nada.

Mas quando penso naquela casa hoje, o que volta primeiro não é a imagem.

É o cheiro.

Cheiro de tecido.

Cheiro de laquê de cabelo.

Cheiro de perfume de vó.

Daqueles perfumes que a gente nunca descobre o nome, mas reconheceria imediatamente quarenta anos depois.

E misturado a tudo isso, o cheiro de comida caseira vindo da cozinha.

Minha avó dava aulas de costura em um dos quartos.

Era quase sempre lá que eu a encontrava.

Algulha na mão.

Tecidos espalhados sobre a mesa.

As alunas concentradas.

Falando com aquela calma de quem fez a mesma coisa mil vezes e ainda assim faz com cuidado.

Eu adorava aquelas mulheres.

E elas pareciam gostar de mim também.

Sempre havia um sorriso, um carinho, uma pergunta.

Por alguns minutos eu ficava observando tudo.

Depois acabava indo para a cozinha.

E lá estava Elizabeth.

Quase sempre sentada ou preparando alguma coisa gostosa.

Sem pressa.

Sem barulho.

Tinha uma paz naquela cozinha que eu não sei descrever direito.

Como se a cozinha tivesse seu próprio ritmo.

Como se o tempo passasse diferente ali.

À tarde eu assistia Sessão da Tarde.

Aqueles filmes que ninguém escolhia.

A televisão simplesmente ligava e a gente assistia.

Até o final.

Sem celular.

Sem ansiedade.

Sem a sensação de que existia algum lugar mais importante para estar.

E à noite vinha a melhor parte.

A pizza.

Minha avó fazia tudo do zero.

Preparava a massa.

Esperava crescer.

Montava cada pedaço.

Era uma pizza quadrada, simples, de queijo e tomate.

A gente sentava à mesa e comia juntas.

Até hoje eu não sei dizer se era realmente a melhor pizza do mundo.

Ou se o sabor vinha do lugar.

Da companhia.

Da segurança que eu sentia ali.

Talvez das três coisas.

Naquela casa eu não precisava ser divertida.

Não precisava ser inteligente.

Não precisava impressionar ninguém.

Eu podia simplesmente existir.

E isso era suficiente.

Hoje, tantos anos depois, percebo que a saudade não é apenas da minha avó.

É da sensação que existia naquela casa.

A sensação de pertencimento.

De acolhimento.

De paz.

Às vezes acho que passei boa parte da vida tentando reencontrar aquele lugar.

Em outras casas.

Em outras pessoas.

Em outras fases.

Mas talvez o que eu procuro não seja uma casa.

Talvez eu esteja procurando a menina que andava descalça pelo quintal, comendo morangos direto do pé, enquanto o cheiro de tecido, laquê e comida caseira preenchia o mundo inteiro.

E, por alguns instantes, tudo fazia sentido.

Minha avó me ensinou o que é acolhimento sem nunca ter usado essa palavra.

Só fui entender isso muito tempo depois.

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