Eu não sei exatamente quando decidi que ia escrever isso.
Acho que foi numa noite qualquer, deitada, olhando pro teto, pensando em tudo que eu já vivi e em como nada saiu como eu tinha planejado. E mesmo assim, ou por causa disso, eu ainda estou aqui. Ainda atravessando.
Attraversiamo é italiano. Significa vamos atravessar. No plural. Juntas.
Escolhi essa palavra porque aprendi, mais tarde do que eu gostaria de admitir, que travessia solitária é muito mais pesada do que precisa ser. Que a gente carrega tanto achando que é a única. Que o que sente é demais, ou de menos, ou fora de lugar.
Não é.
Aqui eu conto a minha história. Não a versão editada, não a que faz sentido do começo ao fim. A real com os buracos, os desvios, as partes que eu ainda estou tentando entender.
Sou mãe. Fui casada. Construí coisas e fechei coisas. Morei em lugares diferentes, amei de formas diferentes, e voltei pra casa da minha mãe quando achei que já deveria ter chegado em algum lugar.
Escrevo pra você que também está no meio.
Que também olha pra trás e não reconhece o caminho, e olha pra frente e ainda não enxerga o destino.
Não tenho resposta. Tenho história. E tenho a convicção de que quando a gente conta a verdade, algo em alguém do outro lado respira aliviado e pensa: era isso. e eu não sabia que não estava sozinha.
Seja bem-vinda. Vamos atravessar juntas.